
Vale mesmo a pena desligar tudo da tomada? Quanto custa o consumo fantasma
Vale mesmo a pena desligar tudo da tomada? Quanto custa o consumo fantasma 👻
Desligar o carregador, tirar a ficha da televisão, não deixar nada em stand-by, é o conselho de poupança que ouvimos com mais frequência em Portugal. Fomos ver os números para perceber quanto pesa mesmo o consumo fantasma na fatura, e onde está o desperdício que ninguém te avisa.
Quase todos crescemos a ouvir que devíamos desligar tudo da tomada porque gasta, desde carregadores, a televisões, e à box da internet, pois tudo o que fica com uma luzinha acesa vira suspeito de estar a inflacionar a fatura da luz em segredo. É um conselho bem intencionado e não é inventado, porque o chamado consumo fantasma, também conhecido por stand-by, existe mesmo. A questão é se pesa o suficiente para justificar a obsessão, ou se está antes a desviar a atenção de onde o dinheiro se perde realmente.
O que é, ao certo, o consumo fantasma ❓
Consumo fantasma é a eletricidade que um aparelho continua a gastar quando está desligado mas ligado à tomada, mantendo por exemplo a luz de stand-by acesa, a ligação à internet sempre ativa ou uma televisão pronta a arrancar no instante em que carregas no botão. Não é um mito, porque o Lawrence Berkeley National Laboratory, um dos laboratórios de referência mundial em eficiência energética doméstica, estima que este tipo de consumo representa entre 5% e 10% da eletricidade usada numa casa típica. A questão nunca foi se existe, mas sim quanto pesa no valor de uma fatura.
Quanto pesa mesmo, em euros 💵
Para percebermos quanto pesa mesmo na fatura, é preciso olhar dispositivo a dispositivo. Dados da ADEME, a agência francesa para a transição energética, e medições de fabricantes dão uma ideia concreta do consumo anual em stand-by dos aparelhos mais comuns numa casa. Um router ou uma box de internet gasta cerca de 61 kWh por ano, uma televisão cerca de 77 kWh, um descodificador de TV por cabo ou satélite cerca de 59 kWh, o relógio de um micro-ondas cerca de 26 kWh, e os carregadores deixados na tomada somam cerca de 10 kWh por ano.

Figura 1. Quanto consumo fantasma tem, em média, cada dispositivo de casa.
Numa casa portuguesa com estes aparelhos típicos, isto dá cerca de 230 a 240 kWh por ano só em stand-by e, tendo em conta o preço médio da eletricidade no mercado livre em Portugal, cerca de 0,15 €/kWh, isso equivale a 34 a 36 € por ano, o que por sua vez traduz–se em menos de 3 € por mês. Para efeitos de comparação, o consumo elétrico médio de um agregado familiar português é de cerca de 3.300 kWh por ano, segundo o Inquérito ao Consumo de Energia no Setor Doméstico do INE, ou seja, o stand-by desta casa hipotética pesa uns 7% do total, bem dentro da estimativa do Berkeley Lab, mas longe de ser o vilão que a fatura anda à procura.
Onde está o desperdício a sério 🫸
Se o objetivo é reduzir o valor da fatura, os números apontam para outro lado. Segundo o mesmo inquérito do INE, aquecer água pesa cerca de 19,7% do consumo energético doméstico em Portugal, e um termoacumulador comum de 100 litros, sozinho, pode gastar mais de 1.300 kWh por ano, ou seja, mais do que todo o stand-by de uma casa inteira multiplicado por cinco. Não é um aparelho esquecido na tomada, mas sim uma resistência que aquece dezenas de litros de água todos os dias, para toda a gente do agregado.
Há ainda outro exemplo, este mais sazonal, que é o aquecedor elétrico. A DECO Proteste calcula que um aquecedor elétrico portátil de 2000 W, usado 4 horas por dia durante dois meses de inverno, gasta cerca de 480 kWh, mais do que o stand-by de uma casa típica durante o ano inteiro, e isso em apenas 60 dias de uso. Frigoríficos antigos, máquinas de lavar loiça e roupa usadas com frequência, ou um ar condicionado ligado horas a fio, seguem a mesma lógica, porque são aparelhos que consomem centenas de watts em pleno funcionamento, e não os poucos watts residuais de um stand-by.
Então, vale a pena desligar da tomada? 🤔
Vale a pena, sim, mas por outras razões. Não faz mal nenhum desligar, visto que evita o desgaste de alguns equipamentos e, em casas com muitos equipamentos eletrónicos, os 230 kWh do exemplo acima podem facilmente subir. O problema é tratar este consumo fantasma como a principal alavanca de poupança, quando o maior impacto costuma vir de decisões maiores, como reduzir o tempo de aquecimento de água, rever se ainda precisas de um aquecedor elétrico como solução principal, ou simplesmente perceber se a tarifa que pagas continua a fazer sentido para o teu consumo real.
É aqui que entra a parte que o Manie acompanha. O AutoSwitch analisa a tua fatura e conclui se estás a pagar o preço justo pela energia que consomes. Desligar carregadores é um hábito saudável, mas garantir que a tarifa que pagas por cada kWh, seja ele gasto num termoacumulador ou numa televisão em stand-by, continua a ser competitiva é o que realmente impacta a fatura de energia.
Perguntas frequentes 🙋
O que é exatamente o “consumo fantasma”?
É a eletricidade que um equipamento continua a consumir mesmo desligado do uso ativo, mas ligado à tomada, por exemplo para manter um relógio, um sensor de comando ou uma ligação de rede sempre disponível.
Quais aparelhos gastam mais em stand-by?
Equipamentos sempre ligados à rede, como routers, boxes de internet e descodificadores de TV, costumam pesar mais do que aparelhos simples como carregadores ou micro-ondas, porque mantêm ligações ativas 24 horas por dia.
Desligar tudo da tomada compensa mesmo?
Compensa um pouco, tipicamente na ordem de poucos euros por mês numa casa com vários aparelhos eletrónicos, mas não costuma ser a maior alavanca de poupança disponível. Vale a pena fazê-lo por hábito, sem esperar que resolva a fatura sozinho.
Onde está o maior desperdício de energia numa casa portuguesa?
Segundo dados do INE, o aquecimento de água, feito por termoacumuladores e esquentadores elétricos, é a maior fatia isolada do consumo doméstico, seguido de perto por aquecimento ambiente e grandes eletrodomésticos usados com frequência, como frigorífico, máquina de lavar e secador.
Os aparelhos mais antigos gastam mais em stand-by do que os modelos novos?
Geralmente sim. Há regras europeias de ecodesign que limitam o consumo em stand-by dos aparelhos eletrónicos novos a um valor bastante baixo, o que fez os números típicos descerem nas últimas duas décadas. Um aparelho mais antigo, sobretudo um que já tenha uns anos, tende a gastar mais em stand-by do que um equivalente comprado hoje, simplesmente por ter sido desenhado antes dessas regras existirem.


