
Como ler uma fatura de eletricidade
Termo fixo, preço por kWh, TAR, impostos: a fatura da luz junta tudo numa página e raramente explica alguma coisa. Este guia mostra-te, linha a linha, o que estás a pagar, o que cada componente significa e onde podes realmente mexer.
Em resumo: a tua fatura de eletricidade tem quatro blocos. O termo fixo, que pagas por dia consoante a potência contratada. A energia, que pagas por kWh consumido. As taxas definidas por lei (IEC, CAV e taxa DGEG). E o IVA, aplicado a duas taxas diferentes na mesma fatura. A TAR, definida anualmente pela ERSE, tanto pode aparecer como linha separada na fatura como vir embutida nos preços, consoante a comercializadora. O Manie lê a tua fatura real e usa exatamente estes componentes para verificar se a tua tarifa continua a compensar face ao mercado.
A fatura, linha a linha 🧾
Uma fatura de eletricidade em Portugal segue quase sempre a mesma anatomia, independentemente da comercializadora. Muda o design, mudam os nomes das rubricas, mas os blocos são os mesmos. A fatura fictícia abaixo mostra onde está cada componente e o que significa.

Fatura fictícia de eletricidade com os seis pontos que deves saber localizar: período de faturação, dados do contrato, termo fixo, energia, taxas e IVA. Valores meramente ilustrativos.
Vale a pena decorar dois identificadores. O CPE (Código de Ponto de Entrega) identifica a tua instalação e acompanha-a mesmo quando mudas de comercializadora. A potência contratada, medida em kVA, define quantos equipamentos podes ligar ao mesmo tempo e determina o valor do termo fixo.
O termo fixo: pagas por dia, mesmo sem consumir ⚡️
O termo fixo é um valor em euros por dia que pagas pela disponibilidade da potência, independentemente do consumo. Se fores de férias um mês inteiro e não gastares um único kWh, esta parte da fatura chega na mesma.
O valor depende da potência contratada: quanto maior a potência, maior o termo fixo. Por isso, se o disjuntor nunca dispara em tua casa, pode valer a pena avaliar uma potência mais baixa. A poupança depende do escalão em que estás e dos preços da tua tarifa, e convém confirmar que a potência mais baixa chega para os teus equipamentos em simultâneo.
A energia: a única parte que depende de ti 🔌
A linha de energia multiplica os kWh que consumiste pelo preço por kWh da tua tarifa. Nas tarifas simples há um preço único. Nas tarifas bi-horárias e tri-horárias, esta linha aparece dividida por períodos: vazio, e fora de vazio ou cheias e ponta, cada um com o seu preço. Nos contadores bi-horários e tri-horários, a ERSE define o período de vazio entre as 22h e as 8h no horário de inverno, com ajuste de uma hora no horário de verão.
Repara também no tipo de leitura. Uma leitura real reflete o teu consumo efetivo, medido pelo contador. Uma leitura estimada é uma previsão, que será acertada mais tarde. Se as tuas faturas andam sempre em estimativas, os acertos podem trazer surpresas, e comunicar a leitura ou ter um contador inteligente resolve grande parte do problema.
A TAR: a parte da fatura que é igual para todos 🛣️
A TAR (Tarifa de Acesso às Redes) paga o transporte e a distribuição da eletricidade até tua casa, além de custos de interesse económico geral do sistema elétrico. É definida anualmente pela ERSE e é igual para todos os consumidores com as mesmas características, em qualquer comercializadora.
A forma como a TAR aparece na fatura varia de comercializadora para comercializadora. Há faturas que mostram uma linha com o valor de comercialização e, por baixo, uma linha separada com a TAR. Há outras em que a TAR vem totalmente embutida no preço do termo fixo e no preço por kWh. E há ainda casos híbridos, em que a TAR da potência aparece discriminada mas a do kWh já está incluída no preço da energia. Em qualquer dos formatos estás a pagá-la por inteiro; o que muda é a arrumação. Por isso, quando comparares ofertas, confirma que estás a olhar para preços equivalentes, com a TAR incluída dos dois lados, para não compares um preço com TAR embutida com outro sem ela.
Impostos e taxas: o bloco que não escolhes 🏛️
Depois do termo fixo e da energia, a fatura acrescenta um conjunto de valores definidos por lei, iguais em qualquer comercializadora:
- IEC (Imposto Especial de Consumo): um valor por cada kWh consumido, definido no Código dos Impostos Especiais de Consumo.
- CAV (Contribuição para o Audiovisual): um valor fixo mensal que financia o serviço público de rádio e televisão. É cobrado na fatura da luz por conveniência de cobrança, sem relação com o teu consumo.
- Taxa de exploração da DGEG: alguns cêntimos por mês que financiam a atividade de fiscalização das instalações elétricas.
- IVA: a mesma fatura tem duas taxas de IVA. Desde 1 de janeiro de 2025, com a Lei n.º 38/2024, os primeiros 200 kWh por período de 30 dias pagam a taxa reduzida de 6% nos contratos com potência até 6,9 kVA (300 kWh para famílias numerosas). A CAV e a componente fixa da TAR em potências até 3,45 kVA também beneficiam da taxa reduzida. Tudo o resto paga, em regra, a taxa normal de 23% no continente.
Um detalhe útil: o limite dos 200 kWh ajusta-se ao número de dias faturados. Numa fatura de 42 dias, por exemplo, o consumo com taxa reduzida sobe proporcionalmente. Ultrapassar o limite não elimina o benefício: apenas a parte acima do teto passa à taxa normal.

Decomposição da fatura fictícia de 54,22 €: cerca de 84% do valor está em componentes onde as tuas escolhas pesam (tarifa, potência, horários de consumo) e cerca de 16% em taxas e impostos definidos por lei. As proporções variam com o consumo e a tarifa de cada casa.
O que podes controlar (e o que não podes) 🎯
A boa notícia é que a maior fatia da fatura está nas componentes onde as tuas decisões contam:
- A tarifa e a comercializadora: o preço por kWh e o termo fixo variam bastante entre ofertas, e uma tarifa competitiva há um ano pode já não ser a melhor hoje.
- A potência contratada: ajustá-la ao que realmente precisas reduz o termo fixo todos os dias do ano.
- O ciclo horário: numa tarifa bi-horária ou tri-horária, deslocar consumo para o período de vazio pode reduzir a fatura sem cortares em nada.
- Os teus hábitos: máquinas de lavar, termoacumulador e carregamento do carro elétrico são os consumos mais fáceis de mover para as horas baratas.
Já a TAR, o IEC, a CAV, a taxa DGEG e o IVA não dependem de ti nem da comercializadora. Nenhuma tarifa te livra deles, e qualquer oferta que prometa o contrário merece desconfiança.
É nas componentes controláveis que o Manie trabalha: lê a tua fatura, identifica o consumo real, a potência e o custo atual, e compara com as ofertas disponíveis no mercado. Se existir uma opção claramente melhor, trata da mudança. A poupança concreta depende sempre do teu perfil de consumo e da tarifa em vigor, por isso nenhum valor é garantido à partida, mas perceber a fatura é o primeiro passo para deixares de pagar mais do que precisas.
Perguntas frequentes 🙋
O que é o termo fixo da fatura de eletricidade?
É o valor que pagas por dia pela disponibilidade da potência contratada, independentemente do consumo. Aparece na fatura como um preço em €/dia multiplicado pelo número de dias do período de faturação. Depende do escalão de potência (por exemplo, 3,45 kVA ou 4,6 kVA) e existe mesmo que o consumo seja zero.
Porque é que a minha fatura tem duas taxas de IVA?
Porque a lei aplica taxas diferentes a componentes diferentes. Desde 1 de janeiro de 2025, os primeiros 200 kWh por período de 30 dias pagam 6% nos contratos até 6,9 kVA (300 kWh para famílias numerosas), tal como a CAV e a componente fixa da TAR até 3,45 kVA. O restante consumo e as outras componentes pagam, em regra, 23% no continente. Nas Regiões Autónomas aplicam-se taxas próprias.
O que é a TAR e porque aparece em algumas faturas e noutras não?
A TAR é a Tarifa de Acesso às Redes, definida anualmente pela ERSE, que paga o transporte e a distribuição de eletricidade e outros custos do sistema. A apresentação depende da comercializadora: algumas mostram a TAR como linha separada, outras embutem-na nos preços do termo fixo e do kWh, e há faturas que discriminam a TAR da potência mas incluem a do kWh no preço da energia. Em qualquer dos formatos, pagas sempre o mesmo valor de TAR para as mesmas características de contrato.
O que é o CPE e para que serve?
O CPE (Código de Ponto de Entrega) é o identificador único da tua instalação elétrica, começa por PT e tem 20 caracteres. É esse código, e não o teu nome ou contrato, que identifica a casa junto do operador de rede. Precisas dele para mudar de comercializadora, pedir alterações de potência ou reportar problemas.
O que significa leitura estimada?
Significa que a comercializadora não usou o valor real do contador e faturou com base numa previsão do teu consumo. Mais tarde, quando existe uma leitura real, a diferença é acertada. Podes evitar estimativas comunicando a leitura dentro do prazo indicado na fatura ou, se tiveres contador inteligente, as leituras reais tendem a ser usadas automaticamente.


